Veredas da cultura popular brasileira
- por Jorge Lampa
Pulmões do Brasil
Dizem que a Amazônia é o pulmão do mundo, aí já vêm outros e argumentam que não, que são as algas do oceano que dão conta de manter taxas bacanas de O2 na atmosfera, outros dizem que o negócio agora é a emissão de carbono e eu digo que, embora kiotos e estufas sejam problema e responsabilidade de todos, o assunto aqui do blog é som e música.
E portanto, neste mundo de ondas e vibrações com significados, eu digo que os pulmões do Brasil são as sanfonas, acordeons, gaitas, cordeonas e pés de bode, etc., etc.
Recentemente, a gente teve a oportunidade de assistir (por uma boa temporada, no ótimo espaço de cinema do Unibanco - “mas não tem cultura na região” - eu quando fui ver tinha só mais duas pessoas na platéia) o estonteante de tirar o fôlego “Milagre de Santa Luzia”, documentário de Sérgio Roizenblit sobre o Brasil sanfoneiro e os sanfoneiros do Brasil. Aliás, a origem de tudo foi um projeto de um SESC da Corte (Pompéia, se não me engano) sobre o Brasil da Sanfona.
Realmente é gigantesco esse Brasil, não só as suas dimensões físicas mas uma geografia musical ainda por ser explorada para que a gente possa saber quem são os grandes virtuosos das muitas regiões e suas culturas musicais.
Ali no documentário a gente fica reforçando a crença no talento imenso de Dominguinhos e dos tocadores nordestinos (aliás, falando do fole humano, de pulmão e gogó mesmo, o filme tem umas cenas de uns vaqueiros, aió e gibão de couro, espora, tudo; cantando aboio que é de chorar de saudades de algo que a gente não viu…) e fica revendo e conhecendo os muitos sotaques que o instrumento adquiriu de norte a sul a centro-oeste e mais afora. Além do conhecido e reconhecido Borghettinho, os gaúchos escalam uma seleção com craques como o misterioso Gilberto Monteiro, como Luiz Carlos Borges, Edson Dutra e o tradicionalista Telmo de Lima Freitas.
De repente, estamos no Pantanal do Mato Grosso do Sul (e eu volto a falar disso) e ficamos conhecendo o músico local Dino Rocha. Dali a pouco estamos no bailão do Forró de Arlindo dos 8 Baixos. Sivuca e sua música sânfonica; Mário Zan, o rei das festas juninas; Patativa do Assaré e seu fole inspirado de poesias são algumas imagens de grandes brasileiros que não estão mais por aqui e cujo registro adquire, então, um tom de memória ainda mais vibrante.
Para quem quiser uma palhinha (pálida, perto da grandiosidade do filme cujo lançamento em DVD aguardamos ansiosos), acesse:
http://www.omilagredesantaluzia.com.br
Agora vamos ao segundo tempo. Eita, Brasilzão que a gente não conhece e se desse pra pegar ônibus, chalana, avião pra… opa, calma aí, negão! E você também, moça. Tem coisa por aqui, na área, não tem não?
Tião César, Zé do Café, Seu Celso do Guarujá e mais muitos outros que, por ignorância minha, não conheço e portanto não cito. Fora que é só subir a Serra e ouvir Gabriel Levy e Ferragutti, que aparecem no filme e estão firmes, fortes e fazendo show a torto e a direito por aí, graças a Santa Luzia e Santa Cecília.
Mas, e os santos de casa, sanfoneiros de Santos e região, têm recebido a atenção que merecem? Volto a dizer, tem esse moço, é meu amigo, toca comigo, está aqui no jeito, pertinho, se chama Tião César e é grande fera no acordeom, compõe uns chamamés lindos, o som dele tem um sabor pantaneiro portanto universal (“pinte sua aldeia…”).
Se ele volta para o Pantanal ou vai para Nova Iorque, será que fica mais perto e o povo acha mais fácil ouvir?
Bem, se falei um monte de nomes é para sugerir que escutem quando puderem e se citei alguns bons músicos locais é para que valorizem todos (os bons). Como?
Do mesmo jeito que planta precisa de luz e água; músico precisa de ouvidos. Aplausos, fama e dinheiro, são alguns frutos.
Espaço e atenção são fundamentais para verdejar, vicejar e florescer.
Ouçam bem.
Até.
Jorge Lampa - Músico que sonha em fazer o violão cantar e tocar a própria voz. Ama de paixão a música brasileira em suas várias vertentes e por isso fez e continua fazendo um bocado de cursos (Graduação em Música Popular, Mestrado em Artes e Doutorado em Música, tudo na UNICAMP). Atualmente, encabeça o projeto “Solo, Solar”, plantando suas
composições em solo fértil e abrindo as janelas para o sol entrar. Apareçam. www.papolampa.blogspot.com