Capa - Lenine

Setembro 18th, 2008 de Thiago Santos

lenine - lenine

por Thiago Santos (thiago@revistaaovivo.com.br)
foto: Lucas Santos

Tarde de sábado em Santos. Dentro de algumas horas, Lenine vai subir ao palco para apresentar seu novo show, Acústico MTV. Enquanto isso, na passagem de som, em meio ao volume alto dos instrumentos ecoando na casa vazia, Lenine transita calmamente. Calça jeans, camiseta cinza e um confortável chinelo de dedo nos pés. Sempre acompanhado de sua cigarrilha, cruza o palco, conversa alguma coisa com os músicos, sorri, e volta a circular.

Somos apresentados e Lenine se mostra ainda mais simpático do que imaginei. Acomodados no camarim, local de nossa entrevista, pede um café e outra cigarrilha. A fala baixa e mansa não se altera nem quando o som dos instrumentos invade o ambiente em volume muito superior à nossa conversa.

Em um bate-papo descontraído, o cantor, compositor e produtor pernambucano falou sobre sucesso internacional (já vendeu mais de 60 mil cópias somente na França), seu estilo de produção, downloads de músicas na internet e relações humanas.

Ao Vivo: Seus dois mais recentes trabalhos são discos ao vivo, os demais, em estúdio. Qual formato te dá mais prazer e qual a principal diferença para o artista?

Lenine: Primeiro que, o fato de serem dois discos ao vivo, foi uma grande coincidência, eu jamais imaginei que poderia ser dessa forma. Mas os convites foram realmente irrecusáveis. Mas as coincidências ficam por aí. No caso do InCité (2004), por exemplo, tem um material significativo de canções inéditas que foram feitas especificamente para o projeto. Nesse (Acústico MTV), eu não tive esse tempo para fazer. Os prazeres são diferentes. Porque de alguma maneira no estúdio qualquer coisa que você não goste, você apaga e começa de novo. O registro ao vivo não tem essa possibilidade. Você queima etapas ensaiando, arranjando, tocando, mas você já expõe tudo da primeira vez para ser gravado, não tem a chance de arrumar nada. Cada disco é uma coleção de fotos que você faz de canções. Você pode tirar outras fotos da mesma imagem, da mesma paisagem, mas vão ser outras fotos. Então, eu não sei te dizer qual o melhor. Eu me divirto em todas as etapas do negócio. É um prazer meio assim de garoto mesmo.

Ao Vivo: Antes de você, só um brasileiro, o Caetano, havia sido convidado a se apresentar na Cité de la Musique, em Paris. Como você se sentiu com o convite e o prestígio?

Lenine: Na verdade, o mais bacana disso tudo é que, quando o Caetano foi convidado, eu fui um dos convidados de Caetano (risos). Então, a gente já vinha com um vínculo muito bacana em todo o Parque La Villete e na França, não sei dizer por que cara…

Ao Vivo: Então, essa era uma pergunta que eu ia te fazer… A que você credita esse seu sucesso internacional, principalmente na França?

Lenine: Talvez ao meu ar bretão (risos). Não sei cara… O que acontece é que desde 93, 94, época em que a gente lançou, eu e o (Marcos) Suzano, o Olho de Peixe, eu tenho viajado muito. De uma maneira bacana, e construída da mesma maneira como eu construí aqui no Brasil, aos poucos, lapidando, meio de uma maneira artesanal, foi acontecendo no resto do mundo. Em alguns lugares isso teve uma resposta mais poderosa: Canadá, Inglaterra, Espanha, Alemanha. E, em dois lugares, vendemos muitos discos: Japão e França. Por quê? Eu não tenho a mínima idéia… Continuo cantando em português… Agora, uma verdade é que a França sempre esteve muito atenta aos movimentos artísticos do mundo. Então, eu acho que eles têm essa curiosidade e, de alguma maneira, eu me beneficiei dessa curiosidade dos franceses (risos).

Ao Vivo: Você diz que não tem problema nenhum com músicas por encomenda. Nesses casos, você já compõe pensando no intérprete?

Lenine: Esse pode ser um caminho, mas de repente o intérprete sou eu.

Ao Vivo: Qual seu critério na hora de escolher quais de suas composições gravar?

Lenine: Como compositor, eu sou um cara extremamente aberto, até por causa da minha formação, por ser curioso, gostar de estúdio… Eu passei a transitar como compositor em vários nichos diferentes, de Maria Bethânia a Elba Ramalho, Frejat, Gabriel o Pensador. Isso pra mim é um exercício muito bacana. Eu não sou intérprete, eu canto o que eu componho. Mas nem tudo o que eu componho me sinto a vontade para cantar. Eu sou mais chato como intérprete. É difícil dizer pra você o que me comove, mas com certeza tem um filtro. E esse filtro me impede de cantar várias canções que eu fiz, canções que eu me orgulho muito de ter feito, mas que não me vejo cantando.

Ao Vivo: Você se diz cabeça dura em sua relação com gravadoras na hora de produzir um disco, você só apresenta o produto final…

Lenine: Eu sou cabeça dura até, mas não por isso, porque sempre foi assim. Eu sempre fui um artesão. A maneira de fazer, como fazer e como chegar naquele resultado é muito particular. Não foi acadêmico eu não estudei pra isso, eu fui tentando, fazendo… É uma maneira muito minha de fazer. Eu não saberia não fazer meus discos. Então, com a gravadora, não é avulso, a gente definiu o que é bacana.

Ao Vivo: Até aquela coisa de não fazer um disco por ano… Esse tipo de acordo depende de uma postura do artista desde o início do trabalho, ou está diretamente relacionado à sua representatividade?

Lenine: Eu acho que depende de cada artista. Tem gente que é muito competente fazendo um disco por ano, não é o meu caso, até porque eu gosto de viajar. Fazer disco é um grande pretexto para eu viajar. Eu quero ir pra todos os lugares, tu acha que em um ano dá? Um ano não dá pra fazer o Brasil. Então, eu acho que dois anos e meio, três anos é o meu tempo. É o tempo que descobri que preciso pra produzir e cair na estrada.

Ao Vivo: No Brasil temos inúmeros talentos, mas o filtro do mercado descarta muitos deles. Você acha que essa crise das gravadoras pode desencorajar novos artistas?

Lenine: A arte independe do veículo. Música fica, veículo a gente arruma outro. Vai no My Space hoje… Você conhece tantos trabalhos que jamais freqüentaram esse universo mercadológico. Quem tem essa visão, vai continuar fazendo música. Os veículos que ele vai usar para fazer com que as músicas cheguem nas pessoas é que podem mudar. E crise de disco eu já ouvi na minha vida umas quatro, cinco vezes… O entretenimento vai continuar sendo uma das coisas mais importantes para o ser humano. A gente está aqui para rir, para contemplar e sorrir.

Ao Vivo: Eu ouvi você dizer que não baixa música na internet…

Lenine: Não é que não baixo, é que não dá tempo. Meus filhos são mais filtros pra mim. Porque são de faixas etárias diferentes, um de doze para treze, um na faixa de dezoito e outro com vinte e cinco, vinte e seis anos, então, cada um gosta de um tipo de coisa. Na verdade, eu não tenho essa paciência da busca. Ou eu vou direto no assunto, ou eu não fico ali horas procurando.

Ao Vivo: Quando você pensa que nesse instante tem gente baixando sua música na internet de forma ilegal. Como você se sente, o que você acha disso?

Lenine: Eu acho bacana, é mais um veículo que está pintando. Agora, eu continuo acreditando que ainda existe o objeto de prazer, sabe? Você baixa uma porrada de coisa, mas vai ter aquela canção que o cara vai ouvir e dizer: “Pô, o que é isso!”. Aí vai baixar outra música da banda, aí vai baixar a terceira, e vai dizer: “Eu quero ter esse disco! Como é que eu faço?”. Nem que não seja de uma gravadora ou comprado numa loja de disco, mas ele baixa na internet a capa, as letras já traduzidas (risos). Mas o cara vai querer ter. Ou eu sou ingênuo a ponto de continuar acreditando nisso.

Ao Vivo: Você diz que música, acima de tudo é relação humana. Como você avalia esse poder da música de atingir e provocar sensações tão diferentes nas pessoas?

Lenine: Isso é uma arma poderosa… Talvez por isso mesmo é que eu, durante a vida toda, fiz questão que minha arte fosse apartidária. Porque eu acho que a gente exerce uma função político-social muito bacana. A gente é cronista. Se você pegar o disco de qualquer pessoa, vão ter fotos do cotidiano daquela pessoa. Isso é história. Então, eu acho que música é isso aí, entretenimento e informação.

Ao Vivo: No que você acha que suas músicas ajudam ou interferem nas relações humanas?

Lenine: Ah, ajudam e interferem muito. Por exemplo, eu estava fazendo um show, acho que era no Paraná, aí chegou um cara, dono de uma baita fazenda, para me dar um abraço porque a produção leiteira dele aumentou 25%. Ele fez uma fita com a música Paciência e ficava tocando toda vez na hora da ordenha (risos). Ora, quando eu iria imaginar que minha música teria uma função dessas, cara? (risos). Nem por isso estou recebendo queijinho ou leite de graça (risos).

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Enviado em Edição 04 - fevereiro/2007 | Enviar por e-mail  | Hits para esta publicação: 489

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