Capa - Paralamas do Sucesso

por Thiago Santos (thiago@revistaaovivo.com.br)
foto: Mauricio Valadares
Que tipo de introdução pode-se fazer a uma entrevista dos Paralamas do Sucesso? O que dizer que ainda não foi dito sobre esse trio que revolucionou o rock brasileiro, não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina, senão apenas descrever o prazer de entrevistá-los?
Sentados, ao lado de Mauricio Valadares, alinhados em um canto de uma sala reservada na Fnac de Campinas, Herbert Vianna, João Barone e Bi Ribeiro atendiam à imprensa enquanto dezenas de fãs, de pé ou sentados -aqueles que chegaram com bastante antecedência- espremiam-se na espera do bate-papo com os ídolos.
A ocasião do encontro era a divulgação do livro: Paralamas do Sucesso, uma espécie de biografia ilustrada dos 25 anos de carreira da banda. O responsável pelas imagens é Maurício Valadares, fotógrafo que acompanha o grupo desde o início e o primeiro a tocar uma música do trio em um veículo de comunicação -quando trabalhava na Rádio Fluminense e conheceu Hermano Vianna, irmão de Herbert, que lhe deu uma demo da banda.
Naquele fim de tarde, Herbert, Bi e Barone falaram com a Revista Ao Vivo sobre um pouco de tudo. Política, violência, sucesso na Argentina, respeito aos direitos dos deficientes físicos e muito mais. Entre risos e respostas sérias, lembranças felizes e novas realidades, os Paralamas foram, como sempre, autênticos. E proporcionaram, como não poderia ser diferente, uma grande entrevista.
Ao Vivo: Qual é o sentimento de poder dividir com o público fotos de momentos marcantes, íntimos até, de vocês?
João Barone: Muito íntimos. (risos) - (referindo-se a uma das fotos do livro em que Bi Ribeiro aparece nu).
Herbert Vianna: Eu diria que é muito em sintonia com a nossa atitude de cumplicidade mesmo, de tentar, não exatamente impor ou atropelar, mas celebrar junto com as pessoas verdades do dia-a-dia de todo mundo. Das coisas mais verdadeiras e normais que a gente, eventualmente, consiga transformar em canção. E sentir, ao longo da nossa trajetória, uma cumplicidade muito peculiar com a reação da platéia. Um exemplo prático disso, que me ocorre à lembrança, foi um dia em que eu levei meu filho mais velho para mostrar as escolas em que eu tinha estudado em Brasília, os lugares em que eu tinha morado, a Esplanada dos Ministérios, tudo isso. E, no final das contas, a gente ali no fundo do Palácio do Planalto, e o Lula veio e me abraçou. Abraçou muito meu filho, e ele conseguiu abrir um espaço no meio daquela barba e disse: “Pai, esse é o Lula, né?” (risos). E o Lula depois chorou, foi uma celebração super bonita.
Ao Vivo: Falando do Lula, vocês cantaram Luís Inácio e os 300 picaretas. E hoje, como vocês avaliam o governo dele?
João Barone: Ah, muito complexo. (risos)
Bi Ribeiro: Tá difícl, tá difícil…
João Barone: A gente também não sabe de nada. (risos)
Herbert Vianna: Fosse quem fosse num país tão viciado, com tantos canais paralelos, corrupção, atitude tão descompromissada e não exatamente direcionada ao senso comum, à coletividade, o que a média do brasileiro quer é se arranjar, se dar bem e tirar alguma vantagem…
Bi Ribeiro: É difícil remar contra isso aí…
Herbert Vianna: E mesmo sendo um operário do fundo da nossa estrutura social, que ralou todos os degraus nessa batalha, nessa subida - e por conta disso há uma sintonia tão grande da população, a ponto de reelegê-lo -, o país tem uma estrutura tão viciada e tão complexa que não se poderia esperar um milagre, uma trajetória completa-mente ensolarada.
João Barone: O problema é que o brasileiro quer sempre arranjar um herói para salvar a pátria e ninguém consegue fazer isso porque o problema está muito arraigado. O Lula, bem ou mal, no governo dele está passando por essa lavação de roupa suja, um monte de coisa acontecendo como nunca aconteceu em outros governos. Nesse sentido sim: “Nunca antes…” (risos).
Hebert Vianna: Exatamente. O fato de tantas coisas estarem vindo à tona é um parâmetro super peculiar para a gente ter uma visão da reavaliação, do reprocessamento de tantas complexidades viciadas que o poder do Brasil tem.
Bi Ribeiro: E com relação à música, o que a gente cantou naquela época era aquilo mesmo de 300 picaretas, e só piorou. Ele tinha razão, o que a gente fala ali a gente não desdiz.
Ao Vivo: Vocês sempre buscaram chamar a atenção para assuntos assim, fazer críticas político-sociais. O que mudou dos anos 1980 para cá? O que melhorou e o que piorou neste tempo?
João Barone: É difícil dizer… Tem coisas que melhoraram muito e outras que pioraram muito. E acho que no saldo a gente vive um processo muito traumático da maneira como a violência está instalada nas grandes cidades de todo o país. E muitas letras que o Herbert tinha feito há anos atrás, tem uma música do Big Bang chamada Bang Bang, estava me lembrando hoje…
Bi Ribeiro: De 1989…
João Barone: Que fala sobre essa coisa do tiroteio, quando fecham as ruas do Rio, o túnel ficou fechado na Rocinha… E de lá pra cá só fez piorar isso. Piorou, piorou, piorou e não teve nenhum tipo de corte nessa coisa vil que é a violência da maneira como ela está. E acho que nesse sentido a gente fica um pouco mais traumatizado, a ponto de não lembrar muito das coisas boas. Porque seja no Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre a violência está instalada de uma maneira que parece que a gente precisa chamar um super-herói pra resolver, porque ninguém consegue resolver. Talvez só Super-Homem consiga vir pra salvar a humanidade.
Ao Vivo: Herbert, você se tornou patrono de um informativo, chamado Na Luta, voltado para os deficientes físicos. Sendo uma pessoa que viaja por todo o país e também ao exterior, como você vê o Brasil na questão do respeito aos direitos dos portadores de necessidades especiais e como você se sente ao fazer parte deste projeto?
Herbert Vianna: Eu me sinto… (pausa). É um, digamos, inesperado não planejado, mas que eu me sinto entusiasmado a respeito de, de alguma maneira, estar opinando e tentando lançar luzes a uma questão que eu mesmo, antes de ter acontecido o acidente, não pensava a respeito, não prestava atenção em detalhes. Mas hoje em dia eu vejo como cada desnível de centímetro pode ser uma barreira gigantesca para tantas pessoas: acidentados, idosos, para uma mãe empurrando um carrinho, enfim… O fato de que o Brasil de alguma maneira se predispõe a falar mais, a abrir mais o debate a respeito, isso eu diria que é um sintoma da evolução da consciência nacional. E uma peculiaridade, que me vem à tona com força, é o fato de que há não tanto tempo atrás, a televisão brasileira, por exemplo, era dividida entre Globo e os não-Globo. Mas o fato de que hoje cada vez mais pessoas tenham acesso a tantos outros canais de informação, de várias maneiras vem implodindo aquele processo de opinião nacional via Rede Globo, de visão nacional de classe média abastada, ou o quer que seja. O fato de que hoje a gente tem tantos outros meios de informação, tantos outros canais pelos quais você vê alternativas e temas mais naturais seja esportivo, exploração, cultura, curiosidades… Enfim, o fato de termos desconstruido uma estrutura que tinha um pilar central tão sólido, eu sinto que é um dado de evolução da nossa sociedade mesmo.
Ao Vivo: Eu li no site de vocês que a primeira apresentação dos Paralamas do Sucesso fora do Rio foi em Santos. Vocês lembram daquele show?
Bi Ribeiro: Não foi um show, foi uma série de shows. Lá tinha um lugar chamado Heavy Metal que a gente tocou várias e várias semanas…
Herbert Vianna: E pra mim emocionalmente era tão intenso…
Bi Ribeiro: Herbert morou em Santos…
Herbert Vianna: Porque eu tinha morado, quando era criança, na Base Aérea de Santos, ou seja, era do lado de cá do porto. Em frente à minha casa tinha ainda um resto de mato e o canal, aí você via o porto do outro lado, a movimentação, a chegada dos navios de carga e de passageiros… E mais ou menos em frente à essa vila militar, da Base Aérea de Santos, tinha um navio encalhado que pra gente naquela época era o grande desafio de quem conseguia nadar até aquele navio, e dali subir na parte que não estava submersa. E, enfim, pular na água da maior altura possível… Pra gente era uma diversão e um fascínio ver, por exemplo, os grandes navios de passageiros italianos daquela linha C, que é uma linha tão forte. Quando aqueles navios entravam, tão superlotados de passageiros com uma reação tão bonita e, se fosse noite, eram navios que tinham certo grau de sofisticação de iluminação… Enfim, pra gente naquela época era um fascínio difícil de descrever.
Ao Vivo: Vocês fazem sucesso na Argentina, talvez mais do que qualquer outro artista brasileiro. O que há no som ou na postura do Paralamas que conquistou esse público?
João Barone: Acho que não tem uma explicação muito lógica não, a gente foi chegando lá…
Bi Ribeiro: Chegamos do zero e fomos batalhando…
João Barone: O que ajudou um pouco foi o cenário local. O Herbert teve um “namoro” muito frutífero com alguns grandes artistas do pop argentino, a ponto de se auto-influenciarem. Todo mundo hoje já ouviu falar no Fito Paez, Charly Garcia, Soda Stereo, nomes referenciais do pop argentino, e a gente se sente orgulhoso em ter aberto esse caminho, essa interação, ao menos da nossa parte, porque lá eles são muito abertos. A gente esta falando aqui de Paralamas, mas eles consomem muita música brasileira lá: Daniela Mercury, Skank…
Bi Ribeiro: Rita Lee, Caetano…
João Barone: Milton… Eles consomem tudo isso. E a gente aqui no Brasil ainda é muito fechado. Principalmente pela língua, pelas diferenças no idioma…
Bi Ribeiro: Nível cultural também… Os caras têm curiosidade de conhecer coisas, aprender coisas, aqui não, querem mastigado…
Herbert Vianna: E nós, como uma decorrência natural do nosso entusiasmo e curiosidade, uma vez que no Brasil surgimos dentro de um florão pop com gente como Blitz, Cazuza, Kid Abelha, Titãs, tínhamos esse entusiasmo e curiosidade a respeito de qualquer coisa que se tivesse informação de países vizinhos. E um fascínio muito forte começou a entusiasmar a gente a respeito do pop argentino mais recente, a ponto de, muito antes de estarmos com algum grau de popularidade, de termos feito alguma visita, gravarmos uma canção de um grande artista argentino deixando o refrão em castelhano: “Dame tu amor, solo tu amor” (cantarola Trac trac, de Fito Paez). E o retorno que isso teve, o que isso representou como uma ponte entre as culturas jovens dos dois países foi muito, muito bonito.
Ao Vivo: Como uma banda que está completando 25 anos de carreira, que recado vocês podem deixar para quem está no começo, aqueles que ainda estão em busca de seu espaço?
Herbert Vianna: Encontrem seu Maurício Valadares (risos). E tenham certeza de que a química interna da banda é muito sólida em termos de amizade e admiração mútua, entusiasmo, enfim…
João Barone: O négocio é tocar com paixão mesmo que uma hora acontece alguma coisa. Se o amor pela música e a vontade de tocar forem maiores do que qualquer outra pretensão, aí sim as coisas começam a acontecer.
Enviado em Edição 07 - outubro/2007 | Enviar por e-mail | Hits para esta publicação: 842


Novembro 22nd, 2009 às 23:36
Bom…nem sei como comeco pq sou completamente apaixonada pelo paralamas…tive o prazer de conhece_los em uma cidade chamada Itaperuna…depois encontrei eles na minha propria cidade q se chama muriae MG e foi otimo…qria muito manter o contato com bi ribeiro pois gostei muito dele.
bjos