Especial - Rogério Skylab

Setembro 22nd, 2008 de Thiago Santos

skylab - skylab

por Thiago Santos (thiago@revistaaovivo.com.br)
foto: Solange Venturi

Rogério Skylab. Você já deve ter ouvido falar nesse nome. Provavelmente seguido ou antecedido pelo adjetivo “maluco”. Essa é provavelmente a primeira impressão que se tem ao ouvir alguns clássicos do compositor, como Matador de passarinho, Moto-serra, Convento das carmelitas, entre outros, presentes em sua discografia oficial. E, principalmente, ao se deparar com versões piratas, segundo ele, de canções interpretadas em shows, mas nunca registradas em CD, como Chico Xavier e Roberto Carlos ou Câncer no cu.

Mas não se iluda. Esse tipo de classificação simplista, com certeza, não se encaixa a este filósofo de formação e com longa carreira no Banco do Brasil. Porém, se a loucura não define Rogério Skylab, ela serve como norte para seu trabalho. Seu objetivo é conseguir chegar ao ponto de vista de um louco usando a racionalidade. Parece complicado? E quem disse que era para ser fácil? “Ser compositor não é pra qualquer um”, resume.

Depois do primeiro disco lançado, Fora da Grei (1992), Skylab se engajou em um projeto raríssimo, para não dizer inédito, entre os artistas brasileiros: criar uma obra com começo, meio e fim. Os álbuns numerados e em seqüência, começaram com Skylab (1999). A cada ano um novo capítulo foi adicionado e agora, com o lançamento de Skylab VIII (2008), sua obra chega à reta final. Preocupado com o que fazer depois? Pensando em “esticar” a série? Nunca. Ele faz questão de dar o ponto final.

Presença assídua e sinônimo de sucesso no sofá de entrevistados de Jô Soares, foi na sala de sua casa, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, que Rogério Skylab recebeu a reportagem da Revista Ao Vivo. Falou sobre como o avanço tecnológico da produção independente pode ser estudado através de sua discografia e como acredita que seu trabalho seja póstumo. Falou também sobre suas influências, a impossibilidade de controlar a recepção de seu trabalho e das personalidades que cita em suas músicas.

Mas, se você espera dar algumas risadas com essa entrevista, veio ao lugar errado. Skylab falou sério, como raras vezes tem-se a oportunidade de ver. Afinal, como ele mesmo define: seu trabalho está muito mais ligado ao trágico do que ao humor.

Ao Vivo: Nas suas entrevistas você costuma dizer que o seu trabalho não tem nada de louco. Que o que você quer é chegar à loucura através da razão. Como isso funciona?

Skylab: Meu trabalho tem relação com o inconsciente. Ele tem relação com a psicanálise. Ele tem relação com a loucura. Então, a questão toda para mim é justamente essa: as fronteiras entre a razão e a loucura. Entre a consciência e o inconsciente. Aí, eu tenho como grandes referências no meu trabalho pessoas que, por viverem uma situação de esquizofrenia, ainda assim produziram trabalhos muito interessantes. Nas artes plásticas, o Bispo do Rosário, que era uma pessoa interna. E na música, um sujeito chamado Damião Esperiença. Eu diria, se eu tivesse que criar um paralelo entre o que ele faz e um compositor internacional, eu citaria Syd Barrett, que foi o grande espírito do Pink Floyd. O Pink Floyd nasceu com o Syd Barrett. Depois ele enlouqueceu, produziu alguns discos solos, e esses discos são interessantíssimos, já sob o efeito da loucura. E o Damião Esperiença produziu uma discografia no Brasil, ignorada pelos críticos, interessantíssima, à margem das grandes gravadoras. Ora, o trabalho dele, assim como o trabalho do Bispo do Rosário, é a expressão de um louco, a expressão de um esquizofrênico, que ainda assim consegue se expressar e produzir um trabalho muito interessante. Qual o meu trabalho? Qual o meu itinerário? O meu itinerário é partir da razão para chegar à loucura. É diferente. Eles não, eles já vivem na loucura. Eu procuro chegar a uma loucura conscientemente. Daí porque uma das minhas grandes referências na literatura seja James Joyce, com dois romances importantíssimos: Finnegans Wake e Ulisses. Um dia a filha do James Joyce mostrou os seus escritos ao psicanalista achando que se pareciam muito com os do pai. E o psicanalista disse assim: “Mas onde você está banhada é diferente de onde ele estava”. Ou seja: ela vivia realmente uma situação de esquizofrenia. Então é isso, como você pode ler o meu trabalho como se fosse um louco que tivesse escrito, composto tudo aquilo, mas que na verdade não. Eu para produzir aquilo, produzi com um racionalismo absoluto.

Ao Vivo: Parece que você tem um trabalho muito grande para desenvolver suas composições dessa forma. E as pessoas te rotulam de “louco”. Isso deve ser frustrante.

Skylab: Mas aí que tá. Você não pode ter o controle sobre a recepção do seu trabalho. Cada um recebe o trabalho da maneira que lhe convier. Cada um lê o que pode. Você pode ver um filme e ter um tipo de leitura. O outro vê o mesmo filme e tem uma leitura completamente diferente. Então, quando você me pergunta se eu me frustro, eu não posso me frustrar. Algumas pessoas acham que o meu trabalho está ligado ao humor. Mal sabem elas que o meu trabalho está muito mais ligado ao trágico do que ao humor.

Ao Vivo: Aí, quando você diz que sente falta de uma análise concreta sobre sua obra, passa por isso também, não é? Você sente que seu trabalho não é levado a sério?

Skylab: Mas eu não posso fazer nada. É uma situação que eu sou absolutamente impotente. Se um crítico, por exemplo, não gosta de Rogério Skylab, o que eu vou fazer? Problema dele, entendeu? Cabe a mim continuar produzindo o meu trabalho. Se ele está gostando ou não, eu estou “cagando” pra isso. A recepção do meu trabalho não é um problema.

Ao Vivo: Você já disse há algum tempo que o Skylab X é o fim da série. Parece que você tem o controle inteiro da sua obra, com começo, meio e fim. Foi assim mesmo que aconteceu, você já tinha essa idéia desde o começo?

Skylab: Isso. E isso está ligado ao racional, ao excesso de planejamento. Nada é gratuito. É tudo extremamente planejado. Tão planejado que chega às raias da loucura, de tão racional que é. Por maior aparência de loucura que ele tenha, e para alguns tenha essa relação, nenhum trabalho no Brasil é tão lógico, é tão racional, é tão planejado quanto o meu. Desde o primeiro Skylab eu dizia que o meu trabalho iria acabar no Skylab X. E vai. Eu estou lançando agora o Skylab VIII, no próximo ano eu lanço o Skylab IX. E no X eu faço o DVD e a retrospectiva das principais músicas dos anteriores. E com a intenção de, junto ao DVD e ao CD, lançar o meu songbook, com todas as minhas músicas, de todos os discos. Aí eu acho que eu concluo o meu trabalho. Eu acho que o grande problema dos músicos, dos artistas brasileiros, é a dificuldade que eles têm em dar o ponto final. Eu sempre cito duas pessoas que souberam dar o ponto final: Pelé e Greta Garbo. Greta Garbo falou que não faria mais filmes e abandonou o show business. Desapareceu, tornou-se uma pessoa anônima. Sumiu dos jornalistas, dessas coisas… Acabou. É uma coisa que tem uma relação com suicídio: dar o ponto final.

Ao Vivo: Esse ponto final significa o fim de sua discografia ou de seu trabalho como músico de uma forma geral?

Skylab: Não sei te responder. Certamente é o fim da série Skylab. Se eu futuramente vier a fazer um trabalho poderá ser algo em parceria com alguém, um outro tipo de projeto. Mas o projeto do Skylab acaba no Skylab X. Eu acho importante ter essa idéia de fim.

Ao Vivo: Nas suas apresentações, seus gestos, sua entonação são muito marcantes. Isso é uma forma de você completar a música? Como funciona essa sua transformação no palco?

Skylab: É… Alguns críticos têm sobrevalorizado esse meu lado performático. Essa coisa de subir ao palco, interpretar de fazer a performance… Eu questiono um pouco isso. Tudo bem que eu posso ter um lado performático, mas não é o mais nobre no meu trabalho. E quando eles sobrevalorizam isso, esquecem o outro lado, que pra mim é o mais importante. Não é o performático. O mais importante na minha cabeça é a composição. É essa relação de letra e melodia. É o espírito da canção. E que é um trabalho estafante. É o que me dá mais trabalho, o que é mais difícil. Ser compositor não é fácil não. Ser compositor não é pra qualquer um. E é uma luta você fazer essa junção de letra e melodia.

Ao Vivo: Você é um dos precursores da música independente. Já são nove CDs, incluindo o antecessor à série Skylab, o Fora da Grei. A que você atribui essa longevidade artística?

Skylab: O fato de eu ter entrado muito novinho no Banco do Brasil… Eu saí há pouco tempo, não trabalho mais lá. Mas o Banco do Brasil me permitiu fazer só o que eu quero. Não depender financeiramente de ninguém. Então, pra mim foi muito importante, ele não foi cerceador. Quando eu ganhei a minha primeira licença-prêmio, muitos colegas meus pegaram esse dinheiro e foram viajar, foram para Nova Iorque, Miami. Esse dinheiro serviu para eu produzir meu primeiro disco, o Fora da Grei. Que é um disco horrível, “inescutável”. Por quê? Porque foi produzido numa época em que ainda nem existia CD, o CD estava começando. Nessa época, você ter uma produção independente significava que o teu trabalho estava a léguas de distância de um produto de uma grande gravadora. Era muito ruim. Qualquer disco independente nessa época produzia trabalhos, tecnicamente falando, muito abaixo de um disco de uma grande gravadora. Então, acompanhar a minha discografia, de certa forma, é acompanhar a diminuição do abismo entre esses dois mundos. Tanto que os meus últimos discos não devem nada a uma grande gravadora. Hoje, os melhores discos que você ouve não estão nas grandes gravadoras. Nesse desenvolvimento eu não estou me referindo ao lado artístico, eu estou me referindo ao lado técnico. Um belo exercício é você escutar o meu primeiro disco, o Fora da Grei, e depois ouvir o Skylab VII, você vai ver como tecnicamente houve um desenvolvimento do mundo independente. Como ele foi adquirindo a tecnologia, a ponto de hoje produzir os melhores discos do Brasil.

Ao Vivo: Daqui há algumas décadas, o que você espera que represente o trabalho do Skylab?

Skylab: Eu tenho consciência plena de que o meu trabalho é póstumo, não tenho dúvida quanto a isso. Existe um público hoje, real, que acompanha o meu trabalho. Mas eu acho que meu trabalho é póstumo no sentido de que a valorização real, a nível nacional, vai ser depois de morto. E acho que eu te dei algumas dicas da importância da minha discografia no sentido do mundo. Da aquisição da tecnologia, como ela foi entrando, como as pessoas foram tendo acesso. Como que hoje, cada vez mais, as pessoas têm seus estúdios caseiros e dependem menos de uma grande mesa de estúdio como é que está havendo uma democratização.

Ao Vivo: Nas suas músicas você cita nomes de figuras representativas no cenário nacional. Isso já te rendeu algum processo judicial? Porque as pessoas podem não gostar…

Skylab: Podem não gostar, mas na verdade essas pessoas estão tão lá no top… Elas não têm noção do real. Ana Maria Braga tem alguma noção do real? Ana Maria Braga anda de ônibus ou de metrô? Essas pessoas que estão lá em cima, no topo da mídia, elas não têm a noção do real, provavelmente nunca tenham ouvido falar. Alguém pode ter soprado no ouvido delas: “Ih, fizeram uma música chata pra você…”, mas elas não têm noção disso. Essas pessoas são completamente alienadas. Elas vivem o mundo da mídia, da Globo. Elas saem de casa para o estúdio e do estúdio para casa. E não precisa chegar nessas personagens que eu cito nas minhas músicas. Pense, por exemplo, em uma Maria Bethânia. O que a Maria Bethânia conhece do mundo real? Eles estão encastelados. A música popular brasileira, essas estrelas, elas estão encasteladas, elas não vivem a realidade. Daí porque meu trabalho talvez nem chegue até elas. E se chegar não vai…(pausa). Porque elas estão anestesiadas pelo real. O real não mais atinge, entendeu? Elas vivem um mundo do faz-de-conta, da mídia.

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Enviado em Edição 10 - agosto/2008 | Enviar por e-mail  | Hits para esta publicação: 751

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