Capa - Dominguinhos

Setembro 29th, 2009 de Thiago Santos

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Apontado por Luz Gonzaga como o responsável pela modernização do baião, nessa entrevista exclusiva, Dominguinhos fala um pouco sobre sua carreira, as dificuldades no auge da bossa nova e a volta por cima do acordeon

por Guilherme Meduza
(guilherme.meduza@revistaaovivo.com.br)
foto: Divulgação

O produtor me convida a entrar no camarim. Apesar das poucas pessoas, em uma primeira olhada não o encontro. Percebendo meu olhar perdido e sem graça, o produtor me guia. Dominguinhos estava com cara de gripado e com um boné do Sport Recife ao invés do característico chapéu nordestino, mas não foi isso que o tornou irreconhecível para mim. Logo percebi que nunca tinha visto Dominguinhos sem aquele pequeno detalhe que fica pendurado em seu peito, aquele penduricalho sem o qual o seu corpo aparenta faltar um pedaço, como a perda repentina de um braço, uma perna.

A verdade é que a história do acordeon e dos ritmos nordestinos se confundem com a de Dominguinhos. Herdeiro musical de Luiz Gonzaga e extremamente respeitado no cenário musical não apenas como instrumentista e compositor, mas também pela simpatia, Dominguinhos ajudou a espalhar e a misturar os ritmos nordestinos pelo país e viveu todas as transformações musicais em mais de 50 anos de carreira, sempre carregando seu acordeon.

No início, rodou o Brasil acompanhando seu mestre Luiz Gonzaga. Durante a bossa nova, tempos de vacas magras para os sanfoneiros, tocou em bailes e boates. Os tropicalistas reavivaram a música nordestina e Dominguinhos foi descoberto como compositor, sendo gravado por diversos intérpretes e lotando shows pelo país a partir dos anos 1970.

Com mais de 40 discos, Dominguinhos lançará seu primeiro DVD ao vivo ainda este ano, no qual divide o palco com a sua mulher, Guadalupe, sua filha, Liv Moraes, Elba Ramalho, Renato Teixeira, entre outros convidados. Além disso, afirma ter três discos no forno: um ao vivo no Teatro Fatec, em São Paulo, um de estúdio com músicas inéditas e um segundo encontro com o violonista virtuose Yamandú Costa.

Ao Vivo: Como foi seu encontro com Luiz Gonzaga?

Dominguinhos: Eu tinha oito anos e estava tocando com os meus dois irmãos na porta do hotel Tavares Correia, em Garanhuns. Tocando pandeirinho, meu irmão tocando uma sanfona de oito baixos e o outro tocava um melê (um tipo de percussão que com o tempo foi substituída pela zabumba no forró). Aí nos botaram para tocar lá dentro para um cidadão que eu não sabia quem era, depois que eu vim saber que era Luiz Gonzaga. Eu era muito novinho, não sabia. Meu conhecimento começou aí. E depois, com aproximadamente 13 anos, nós ficamos uma temporada em Recife e Olinda estudando, interno. Voltamos para Garanhuns e de lá viemos de caminhão para o sul do país. Era 1954. Aí fui eu já mais rapazinho, comecei procurando Luiz Gonzaga no Rio de Janeiro. Ele nos deu uma sanfona e nós passamos a freqüentar a casa dele. Eu não saí mais de lá.

Ao Vivo: Luiz Gonzaga afirmava que você modernizou o baião. Você concorda?

Dominguinhos: Eu acho que só segui o que ele estava fazendo, porque Gonzaga, na realidade, foi quem incrementou toda a situação do baião, do xaxado, do xote, do arrasta-pé e depois do forró, que é um ritmo específico. Eu andava ali junto com ele, o tempo todo, vendo ele tocar e aprendendo também. Daí a gente foi tocando o barco para frente da mesma forma, e eles vão tirando as conclusões. No caso ele falou isso aí, mas acho que é mais bondade.

Ao Vivo: Você já afirmou que a bossa nova fez a sanfona desaparecer. Como foi trabalhar com forró nessa época?

Dominguinhos: Quando a bossa nova surgiu com muita força, o violão tomou conta da moçada. O piano, o teclado, o órgão, o clavieta e a guitarra tomaram conta da música. Então, os sanfoneiros, que eram muitos, passaram a ter dificuldade de sobreviver. Ficou quem só sabia tocar sanfona, como Sivuca, Orlando Silveira, Chiquinho do Acordeon, Chinoca, Edinho, Gaúcho do Acordeon, Caçulinha e eu, mas a maioria foi passando para o piano porque não tinha mais campo de trabalho. Mário Mascarenhas, que era o grande professor da época, tinha muitas academias pelo Brasil afora e começou a fechar porque ninguém queria mais aprender acordeon. E toda mocinha tocava, todo mundo tinha um acordeonzinho em casa, era o instrumento da moda. Tinha festival que ele fazia no Maracanãzinho com quinhentos acordeões. E eu fiquei. Moraes, meu irmão, passou para o piano e se deu bem porque ele gostava da noite e tal. Eu não larguei, continuei tocando com o Luiz Gonzaga direto. Aí eu passei para a noite também, tocava em boate, na Rádio Nacional, na Rádio Mairinque Veiga, substituindo Orlando Silveira no Regional do Canhoto, com Dino 7 Cordas, Altamiro Carrilho. Orlando era um professor extraordinário de acordeon e permitia que eu o substituísse. Eu não era nem Dominguinhos, era Nenê do Acordeon.

Ao Vivo: E o tropicalismo, que trouxe novamente a música nordestina para os holofotes. Como foi para sua carreira?

Dominguinhos: No começo dos anos 1970, a Gal Costa e o Gilberto Gil iriam fazer uma viagem para o MIDEM (a maior feira da indústria musical mundial, que acontece anualmente em Cannes, na França, desde 1967), para representar o Brasil. Ela formou um grupo e Guilherme Araújo me convidou para integrar esse grupo que era formado por Toninho Horta, Chico Batera, Luiz Alves e Robertinho Silva.

Ao Vivo: Que time, hein?!

Dominguinhos: Timezinho bom. E o diretor musical foi o Gil. E aí eles me colocaram para esse evento. Foi um agrado muito grande e quando nós voltamos de lá, a Gal preparou o disco Índia (1973) e continuou comigo no grupo. Quando se fala que eles ajudaram a alavancar de novo o acordeon é porque o público de Gal, de Gil, de Caetano, da Maria Bethânia é um público de universitários e eles estavam mostrando o acordeon de novo, porque ninguém queria saber. O universitário começou a respeitar de novo e começaram a me chamar de sanfoneiro pop. Na época eu tinha o cabelo grande, encaracolado, e aí começou a chamar a atenção de novo. Quando eu larguei a Gal, passei para o Refazenda (1975) do Gilberto Gil e aí continuou, as coisas começaram a acontecer.

Ao Vivo: Foi nessa época que começaram a gravar suas composições?

Dominguinhos: Quando nós voltamos de Cannes, o Só quero um xodó já tinha sido gravada por Marinês, uma música minha e de Anastácia. Gil aprendeu a música e já cantou em Cannes, aí os americanos que estavam lá já perguntaram, ficaram doidos pela música e queriam gravar. O Gil disse que chegando no Brasil ia gravar logo essa música senão “um nego desse pega por aí e desaparece” (risos). Aí eu disse tudo bem. Ele gravou um compacto com Meio-de-Campo, um samba, e tocou, tocou, tocou muito na rádio, mas não vendia. Aí viraram e do outro lado era a Só Quero um Xodó, aí foi onde ele deu uma deslanchada de venda muito extraordinária. E eu fui procurado por muita gente para mostrar música e me descobriram como compositor. Por isso também eu agradeço a Gil e a todos que deram esse impulso ao acordeon.

Ao Vivo: São várias músicas sobre o sertão e a saudade. Você acredita que você e Luiz Gonzaga foram a trilha sonora da saudade dos imigrantes nordestinos aqui em São Paulo?

Dominguinhos: (Silêncio) É né? Tô sabendo não… Coisa boa, não? Fico feliz com isso.

Ao Vivo: Você consegue unir o sofisticado com o popular. Isso é algo natural ou você tem esse cuidado?

Dominguinhos: Eu acho que a música em cada evento, cada momento, tem o seu modo. O músico que está lá dentro naquele momento tem o seu jeito. Se você olhar um Egberto Gismonti, um Hermeto Pascoal, de vez em quando eles deslancham a música nordestina, o forró, a coisa mais linda do mundo, cheia de harmonias, cheia de caminhos maravilhosos. Então, a música regional toma contornos de música instrumental jazzística, onde você faz um tema tocando forró e depois todo mundo improvisa. Fica a coisa mais linda do mundo e cada um dá a sua contribuição da sua forma. O que eu vejo na música nordestina hoje em dia, a dificuldade maior, é na qualidade em relação às bandas, que tem em qualquer canto. Tem muita banda tocando e dizendo que está fazendo forró sem estar fazendo. A gente sabe que não tá fazendo. Tem bons músicos, bons cantores, mas absolutamente não estão tocando música nordestina. Poderiam ter arranjado outro nome ou coisa assim para poder se situar bem. Eu acho que eles estão deturpando o forró, porque poderiam fazer um forró com o time de músicos que eles têm, um forró bom, com categoria. Agora, eles não conseguem porque estão fazendo outra coisa, entendeu? Mas de qualquer forma, nós temos a contrapartida dos músicos mais puros, do zabumbeiro, do triângulo, do sanfoneiro, o pé de serra que faz a coisa do tipo que Gonzaga fez, e continuam mostrando o que é o forró. Isso aí é muito importante. Agora, é importante também que a pessoa faça música nordestina com categoria, que faça bem, não importa se é moderno, se deixou de ser moderno, mas fazendo bem a gente vê que está tudo bem. É como quem toca jazz, cada músico tem uma pegada e cada um faz melhor do que o outro.

Ao Vivo: Como é gravar com Hermeto Pascoal?

Dominguinhos: Em primeiro lugar ele é um músico muito consciente. Alguém deve pensar que ele tem uma cabeça louca, mas aquela loucura é muito bem condicionada. Não tem nada de loucura ali, a loucura é muito boa, muito limpa, muito bonita, colorida mesmo. E ele é um menino o tempo todo. Não tem cansaço para tocar, não tem cansaço para criar. E ele nunca se sobrepõe ao seu colega. Eu toquei com ele muito e ele nunca procurou fazer coisas que eu não pudesse fazer. Ele é uma pessoa bondosa, que respeita o limite de cada um, porque não é todo mundo que vai acompanhar a cabeça de um Hermeto Pascoal ou de um Egberto Gismonti se ele cismar de criar, não é? Então eu acho muito bonito isso, quando ele toca com alguém ele sabe onde está pisando e sabe onde deve deixar pisar.

Ao Vivo: Você se considera um embaixador da música nordestina, apresentando para um público que não a conhece?

Dominguinhos: Como eu tenho mais de cinquenta anos de estrada a gente vê muita coisa e passa por muita coisa. E você se torna assim normalmente um. Levando, tangendo, e já tendo seguidores, e são muitos os sanfoneiros que estão me seguindo, estão tocando as minhas músicas. Bons músicos do acordeon, que o acordeon voltou agora com toda força. Nunca se vendeu tanto instrumento como está se vendendo agora, e com muitos músicos maravilhosos desse instrumento atualmente.

Ao Vivo: Você gravou com o Yamandú Costa e participou de uma música no disco do Marcelo Camelo. Como você enxerga essa nova geração de músicos brasileiros?

Dominguinhos: O trabalho com o Yamandú é uma coisa que vem do coração. A gente se conheceu ele era garotinho, com 15 anos, gostando das minhas músicas, do meu trabalho. “Vamos fazer um disco?” “Vamos”. Fizemos alguns trabalhos juntos, alguns shows, fizemos esse disco, e já fizemos o segundo agora há pouco. Só não sei quando sai. E é assim. O trabalho com o Yamandú, por exemplo, que é de uma extirpe jovem e de um naipe de Raphael Rabelo, não é? Eu tenho impressão que ele é um seguidor de Raphael, um cara extraordinário. Como o Raphael foi do Dino 7 Cordas, do Regional do Canhoto, com quem toquei muito, e do Época de Ouro também.

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Enviado em :: Guilherme Meduza, Edição 14 - setembro/2009 | Enviar por e-mail  | Hits para esta publicação: 363

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