Música e solidariedade

por Daniel Cancello*
danibronson@hotmail.com
Recebi um e-mail me convocando para fazer aquela usual caridade da “sacolinha”: comprar uma roupa, um brinquedo, um sapato e mais o que quiser e botar tudo em uma sacola para alguma criança carente receber de presente de natal, o que provavelmente será o único presente do ano para ela. Lá estava escrito: “Sem caridade não há salvação”. E pensar que em alguns lugares do mundo como a Índia o dar e receber ajuda, com esmola ou comida, é considerado algo sagrado e até parte do costume e cultura do povo. Não que eu seja a favor da esmola no caso do Brasil.
A luta contra a miséria tem várias facetas. O vocalista da banda U2, Bono Vox, o casal de atores Brad Pitt e Angelina Jolie, a cantora Madonna, entre outros, são celebridades que emprestam seus nomes em prol do que acreditam ser injustiça e estão sempre envolvidos nas causas, e parece que fazem bastante. Paradoxalmente, nesse meio, adotar uma criança de um país pobre soa até como glamour. A pobreza servindo aos caprichos esdrúxulos da alta classe. Melhor isso do que nada.
Outra questão muito discutida dentro desse assunto é o quanto quem é solidário realmente se importa com o próximo e o quanto isso é apenas marketing pessoal ou um meio egocêntrico de apaziguar a consciência fazendo algo pelo mundo que tanto precisa, é difícil julgar.
Concordo que tudo que vemos na mídia a esse respeito pode ser apenas uma jogada inteligente das assessorias responsáveis pelos artistas que participam das campanhas, uma estratégia de marketing ou também motivo inventado para desviar dinheiro. O fato é que cada vez mais são valorizadas as atitudes positivas, como o trabalho voluntário e a sustentabilidade, independentemente da índole das pessoas envolvidas e das tantas perguntas que poderiam se fazer de obstáculo.
Muitas pessoas falam que o Criança Esperança, o Teleton ou o Mc Dia Feliz são programas onde as corporações em questão faturam alto e não tem intuito nenhum de ajudar ninguém. Fica difícil saber ao certo se um programa dessa magnitude tem uma conduta honesta e propósitos verdadeiros.
Na minha opinião penso que tudo que seja feito para melhorar a situação dos desfavorecidos, do meio ambiente, dos doentes ou de qualquer área que nessecite de auxílio é muito válido. A meu ver não cabe julgar o porquê que as pessoas fazem isso; se é pra se sentirem bem ou se é por compaixão mesmo, o fato é que algo está sendo feito.
Na verdade ações positivas englobam muito mais. Começa no pensamento e se reflete em tudo o mais. Sempre deve estar acompanhada da despretensão, no sentido de não esperar nada em troca (nem a salvação!) e pode virar algo automático, instintivo. Pode ser um gesto, um sorriso na hora certa, uma lembrança, um scrap, uma mensagem, uma conversa sincera, um pensamento com fé ou um milhão de reais para uma entidade de confiança. O que vou dizer a seguir é um pouco piegas mas é a pura verdade: Uma pessoa que leva a vida de forma positiva contagia tudo e todos ao seu redor, e o mesmo vale para a pessoa pessimista.
A música caminha junto com a solidariedade, ela tem esse dom natural de atrair, quase sempre clamando por um mundo mais digno, fazendo-se belo instrumento para a transformação positiva do mundo. Não importa qual estilo, se atinge alguma parcela da massa, pode ser servir para tal intento. Nem todas têm belas mensagens, mas a grande maioria busca esse objetivo.
Durantes os últimos anos, promovi juntamente com alguns parceiros, cerca de cinco festas com proposta beneficente. Até hoje todas foram pra colaborar com instituições infantis, mas pretendo diversificar um pouco nas próximas. A somatória dos valores arrecadados em todos os eventos esse ano ultrapassou os dez mil reais.
Não sei se dormirei melhor por isso, se assim pago um pouco dos meus tantos pecados ou se a salvação está perto. Sei que algo está sendo feito, aproveito para agradecer aqui os que sempre estão presentes e os amigos indispensáveis que contribuem muito para dar tudo certo. Este ano arrecadamos mil e seiscentos reais que serão distribuídos igualmente para a Casa da Vó Benedita e para a Associação Cristã Beneficente Eurípedes Barsanulfo, além de alguns alimentos e roupas.
Ano que vem tem mais!
*Daniel Cancello é músico, jornalista e nascido em Santos. É integrante da banda Carlos Bronson e se apresenta semanalmente nas melhores casas noturnas de Santos e de São Paulo. www.myspace.com/danielcancello www.myspace.com/carlosbronson
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